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Ilikethis | “Para fazer qualquer coisa na vida temos de gostar”
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“Para fazer qualquer coisa na vida temos de gostar”

“Para fazer qualquer coisa na vida temos de gostar”

Com um vincado espírito criativo, dono de um sorriso fácil e contador de histórias, José Redondo é o grande guardião dos valores de uma marca que atravessou gerações e se mantém como o “Licor de Portugal”. Filho de José Carranca Redondo, fundador do Licor Beirão, José Redondo afirmou-se como um dos maiores empresários portugueses, mantendo a ligação à terra, à família e a um negócio com mais de 70 anos.

A história do Licor Beirão começa no século XIX. O que nos pode contar do início desta aventura?
O meu pai começou muito novo, com apenas 12 anos, a trabalhar numa fábrica de licores. Aos 18 anos foi trabalhar para a Remington, empresa de máquinas de escrever, onde rapidamente foi um dos melhores vendedores. Quando começa a Segunda Guerra Mundial, a empresa regressou aos EUA para fabricar material de guerra, e o meu pai ficou desempregado. Nessa altura, ele já andava a namorar a minha mãe e propôs-lhe: “Se casares comigo, compro a fábrica de licores”. Depois de
ter comprado a fábrica, que tinha 70 produtos, ele reduziu logo para apenas cinco ou seis e começou a fazer publicidade ao Licor Beirão.

O que recorda de tempos mais antigos sobre a fórmula do Licor Beirão?
Quem pesava as plantas e as entregava no alambique era a minha mãe. Com duas ou três funcionárias, era a minha mãe que fazia a destilação e o xarope. Nos primeiros anos posso dizer que o meu pai quase não ligava ao licor. Ele andava sempre envolvido na publicidade, no desenvolvimento de novas formas de publicitar a empresa. Quando voltei do Ultramar, comecei também a ajudar a minha mãe a pesar os ingredientes e foi ela que me passou a receita, que se mantém secreta até hoje.

O seu pai fazia publicidade numa altura em que em Portugal esta não era uma prática comum. Como é que surgiu o interesse dele pela publicidade?
Ninguém fazia publicidade, acho que foi algo inato nele. Pintava murais, colava cartazes, distribuía autocolantes, réguas, porta-guardanapos, todo o tipo de publicidade que possa imaginar. O Licor Beirão até publicitou uma equipa de ciclismo, nos anos 50. Nessa altura não existiam equipas associadas a marcas e essa equipa foi proibida de participar nas competições. Sem dúvida que o meu pai foi um visionário.

Quais as ideias mais inovadoras que recorda?
Tantas. Fazer publicidade nos anos 50, 60 e 70 era algo muito raro e havia poucas empresas de publicidade em Portugal. Nos anos 60 surgiu uma lei que impedia a colocação de publicidade nas estradas, fora dos meios urbanos, porque se considerava que esta distraia os condutores. Perante
esta lei, as empresas pararam de afixar cartazes. O meu pai não. Com 18 anos, depois de ter tirado a carta de condução, uma das coisas que me dava mais prazer era sair com um funcionário da empresa e ir afixar cartazes. Mas, já antes disso, com 10 ou 12 anos trabalhava aqui na fábrica no fim das aulas.

Era algo que gostava?
Sim, era algo que acabava por gostar. Gostava porque tinha contrapartidas: era quem tinha a melhor bicicleta, era quem saia com o meu pai para ir a Coimbra ou à Figueira da Foz, tendo em conta que na altura sair da Lousã era fantástico. Gostava muito de andar com ele e passávamos muito tempo
juntos; estive mais de 50 e tal anos diariamente com o meu pai.

Quais as que recordações que tem do seu pai?
O meu pai era uma pessoa muito exigente, muito dura, que não se coibia de me dar qualquer ordem. Mas tinha também uma grande vertente humana. Tinha esses dois extremos. O meu pai sempre gostou muito de jornais e quando eu tinha oito ou nove  anos ele era o agente do jornal Primeiro
de Janeiro na Lousã. Durante os meus períodos de férias ia muitas vezes distribuir o jornal. O meu pai sempre me incutiu muito a ideia de ser empresário, de criar uma empresa. Aliás, toda a empresa de publicidade do Licor Beirão era minha.

Qual o principal legado que o seu pai lhe deixou?
Penso que o principal que ele me deixou foi o amor pelo trabalho e pela empresa. Continuo a chegar à fábrica todos os dias às oito da manhã e a possibilidade de me manter ativo na fábrica é algo muito importante, que acho que herdei do meu pai. Aliás, um dos meus netos já me disse uma vez: “avô, tens cá uma pedalada”. Foi algo que me arrepiou, porque essa é a mensagem que quero transmitir aos meus filhos e netos. Para fazer qualquer coisa na vida temos de gostar. Foi este legado que herdei do meu pai e que transmiti também aos meus filhos.

Recentemente foi lançado o Beirão d’Honra, uma edição especial para comemorar o centenário do nascimento do seu pai. O que é que ele diria sobre este produto?
O Beirão d’Honra foi o primeiro produto que lançamos em 70 anos. Acho que o meu pai iria começar por dizer mal [risos]. Ele era extraordinariamente polémico e acho que nunca elogiava nada nem ninguém. Apenas me recordo de uma vez o meu pai ter chorado, quando fui destacado para Moçambique. Ele era um homem de uma rispidez e dureza tremenda, mas também era muito emotivo, criativo, persistente e um comunicador nato. Em relação a este novo Beirão, não sei se ele iria gostar. Em primeiro lugar, há algo que ele ia criticar certamente. O licor tradicional ronda os 10 euros e este Beirão d’Honra custa 20 euros. Aí ele iria criticar, porque a relação preço-qualidade era sagrada para ele. Ele queria sempre ganhar o máximo, vendendo o mais barato possível.

Quais as qualidades que considera ter que o fizeram ser um empresário de sucesso?
Como empresário não chego nem aos calcanhares do meu pai [risos]. Posso ter mais formação do que o meu pai, mas garantidamente ele era um empresário brilhante, notável. Com apenas a quarta classe deixou um legado criativo e empresarial muito rico, que orgulha toda a família.

É um conhecido apaixonado por râguebi. Qual a sua ligação a esta modalidade?
Joguei râguebi durante 10 ou 12 anos na Académica, quando estudei em Coimbra. Quando cheguei à Lousã em 1973, depois do serviço militar, andei durante dois anos a tentar lançar a modalidade nesta região, porque era uma modalidade pouco conhecida. Em 1978 já tinha um grupo de juniores, que em 1981 já eram seniores. Foi também nesta altura que fundei o Rugby Club da Lousã, que está na primeira divisão em Portugal. Temos excelentes instalações, exclusivamente orientadas para a prática de râguebi, e um estádio com o meu nome. Os meus filhos dizem que sou o “paitrocinador” deste clube. Os meus filhos também jogaram, foram até internacionais, e oito dos meus dez netos também jogam. O râguebi é, efetivamente, uma paixão.

Considera-se um homem rico?
Sim, em vários aspetos. Pela minha família, e pelo legado que recebi e preservo, considero-me uma pessoa riquíssima e muitíssimo feliz.

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