Custom Menu

Latest From Our Blog

Ilikethis | Fábrica da Pólvora de Barcarena, passado e presente
20621
post-template-default,single,single-post,postid-20621,single-format-gallery,ajax_fade,page_not_loaded,,wpb-js-composer js-comp-ver-4.12.1,vc_responsive

Fábrica da Pólvora de Barcarena, passado e presente

Fábrica da Pólvora de Barcarena, passado e presente

Três elementos – salitre, enxofre e carvão – marcavam o dia-a-dia da vida de quantos trabalhavam numa das mais antigas fábricas de pólvora da Europa. É através da mistura destes três compostos, à qual se adiciona água, que em Barcarena se produziu pólvora durante quase 400 anos. Nesta localidade do concelho de Oeiras, a Fábrica da Pólvora constituiu um espaço aglutinador da população local e das zonas circundantes, afirmando-se como um lugar de importância vital para o desenvolvimento socioeconómico da localidade.

Em Portugal, os séculos XV e XVI caracterizam-se por uma aposta na política ultramarina, que conduziu à Época dos Descobrimentos. Para artilhar as naus foi necessário garantir aprovisionamentos em material bélico, bem como meios para o fabricar, o que potenciou o desenvolvimento da artilharia. Foi neste contexto que D. João II instituiu
umas ferrarias para o fabrico de armas em Barcarena, denominadas Ferrarias d’El-Rei, que durante o reinado de D. Manuel I se transformaram em fábricas de produção de armas. É entre 1618/1619 que é fundada a Fábrica da Pólvora de Barcarena, numa localidade que beneficiava de uma “localização estratégica, uma vez que era afastada de
Lisboa, com fácil acessibilidade, mas relativamente escondida e protegida de possíveis ataques”, esclarece Alexandra Fernandes, diretora do Museu da Pólvora Negra.

A Fábrica da Pólvora de Barcarena chegou a ser a única em laboração depois do decreto de 1651, que obrigou à demolição dos estabelecimentos de pólvora que não ofereciam segurança à população local. Entre 1927 e o início da década de 50, a Fábrica apostou numa produção estatal orientada para a comercialização de artefactos militares, ao qual se seguiu um período de arrendamento a particulares. Em 1985 passou a fazer parte da INDEP, SA – Indústrias Nacionais de Defesa, mas acabou por encerrar em 1988.

Durante o período em que a fábrica laborou continuamente, entre 1618 e 1988, foram muitas as mudanças ocorridas, uma vez que, “conforme a pólvora ia sendo aperfeiçoada, surgia a necessidade de melhorar os engenhos e os edifícios”, explica a diretora do Museu. “No século XX, a fábrica já era um conjunto de construções e edifícios que ocupava uma área muito extensa e arborizada, que permitia proteger e esconder a fábrica, mas também condicionar a construção, que não era permitida no perímetro, pelas várias explosões que aqui decorriam”, conta Alexandra. Em 1805 aconteceu uma das explosões mais marcantes, que provocou várias vítimas mortais e a ruína dos telhados e do
interior das paredes da chamada Fábrica de Baixo. Em novembro de 1972 aconteceu outra das maiores explosões, que foi decisiva para o encerramento.

Durante os quase 400 anos que a Fábrica da Pólvora esteve ativa, a água foi sempre um dos elementos mais marcantes. De facto, este estabelecimento fabril caracteriza-se por usufruir da água da ribeira que lhe está
adjacente, evidenciando a estratégica implantação neste vale. Para tal, foi edificado um sistema hidráulico principal, parte do qual ainda hoje é visível em determinados locais.

Além da componente histórica, técnica e industrial, a fábrica tinha uma importância social e económica fundamental na localidade, sendo que o número de trabalhadores era pautado pela necessidade de maior ou menor produção, pela evolução tecnológica ou pela variedade de produtos fabricados. A primeira referência conhecida sobre o número de trabalhadores, que laboravam sob a proteção de Santa Bárbara, padroeira dos operários polvoristas, data de 1763, revelando a existência de 39 indivíduos, mas, em 1888, contavam-se 150 operários. Se até ao século XX apenas trabalhavam aqui homens, com a Revolução Industrial também as mulheres integraram os funcionários da Fábrica.

“Entre 1988 e 1994, a Fábrica esteve encerrada e é nesse ano que a Câmara Municipal de Oeiras adquire toda a propriedade com vista à recuperação e à criação de outras valências”, explica Alexandra Fernandes. A reestruturação do espaço permitiu a abertura do Museu da Pólvora Negra, no edifício mais antigo, que em 2018 completa 20 anos. Neste museu é possível conhecer o dia-a-dia dos trabalhadores, as suas lutas laborais e os acidentes ocorridos.

Na área envolvente do museu estão disponíveis alguns serviços, como restaurante, bar/café e uma cantina, mas também zonas de jardins e espaços verdes, nomeadamente parque de merendas e um parque infantil. É também na área da Fábrica da Pólvora que estão as instalações da Universidade Atlântica, da Associação Chão da Terra, do Centro de Estudos Arqueológicos de Oeiras e d’ A Reserva na Fábrica, um espaço que une o empreendedorismo, o ativismo social, a formação e a criatividade, numa estrutura de laboratório.

A versatilidade do espaço, que congrega história, investigação, lazer e cultura, dá-se também com a realização de vários eventos, nomeadamente ciclos de cinema ao ar livre, as festas da freguesia de Barcarena, no final de junho, e o Festival Sete Sóis Sete Luas, que acontece em julho no auditório onde, em tempos, funcionava o pátio de sol para secagem da pólvora.

Sem comentários

Sorry, the comment form is closed at this time.